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composição corporal, peso e performance, ciclismo, disponibilidade energética, saúde do atleta

No ciclismo, poucas características recebem tanta atenção quanto o peso corporal. Basta acompanhar uma grande prova para ouvir comentários sobre atletas que perderam alguns quilos antes da temporada ou que apresentaram uma composição corporal mais enxuta.
Isso faz muita gente acreditar que reduzir ao máximo o percentual de gordura é sempre o caminho para melhorar a performance.
Mas a fisiologia mostra que essa relação não é tão simples.
Em modalidades nas quais o próprio corpo precisa ser deslocado, como o ciclismo, a composição corporal realmente influencia o desempenho. Porém, isso não significa que quanto menor o percentual de gordura, melhor será o rendimento.
O que determina a capacidade de subir uma montanha, sustentar um ritmo elevado ou responder a um ataque não é apenas o peso corporal, mas a relação entre a potência produzida e a massa que precisa ser deslocada.
Em outras palavras, reduzir peso só representa vantagem quando essa redução acontece sem comprometer a capacidade de gerar potência.
Muitos ciclistas iniciam processos de emagrecimento observando melhora no desempenho. Isso acontece porque o excesso de massa corporal representa uma demanda adicional durante o exercício.
O problema surge quando a busca pela perda de peso continua mesmo após atingir uma composição corporal adequada.
A partir desse ponto, restrições alimentares excessivas podem reduzir a disponibilidade de energia para o treinamento, comprometer a recuperação, diminuir a massa muscular e limitar adaptações importantes para a performance.
Ou seja, chega um momento em que perder mais peso deixa de ser uma vantagem e passa a representar um obstáculo.
Embora frequentemente seja associada apenas ao armazenamento de energia, a gordura corporal participa de diversos processos fisiológicos essenciais.
Ela está envolvida na produção de hormônios, na absorção de vitaminas lipossolúveis, na proteção de órgãos e na manutenção de diferentes funções metabólicas.
Percentuais excessivamente baixos podem favorecer alterações hormonais, aumento da fadiga, maior suscetibilidade a lesões e redução da capacidade de recuperação, principalmente quando associados à baixa disponibilidade energética.
Por isso, saúde e desempenho caminham lado a lado.
Não existe um percentual de gordura ideal que possa ser aplicado a todos os ciclistas.
A modalidade praticada, o volume de treinamento, a idade, o sexo, a genética e os objetivos individuais fazem com que atletas de alto rendimento apresentem composições corporais bastante diferentes entre si.
Mais importante do que perseguir um número específico é encontrar uma composição corporal que permita treinar com qualidade, recuperar-se adequadamente e sustentar a performance ao longo da temporada.
Em alguns casos, aumentar discretamente a massa muscular pode resultar em melhora da potência suficiente para compensar o pequeno aumento do peso corporal.
Da mesma forma, um atleta extremamente leve, mas incapaz de sustentar altas potências, dificilmente apresentará melhor desempenho apenas por ter um percentual de gordura reduzido.
O ciclismo recompensa eficiência, não apenas leveza.
Buscar uma composição corporal adequada faz parte da preparação de muitos ciclistas. No entanto, transformar o menor percentual de gordura em objetivo principal pode levar a decisões que comprometem exatamente aquilo que o atleta pretende melhorar: a performance.
No fim das contas, o melhor físico para pedalar não é necessariamente o mais magro. É aquele que permite produzir potência de forma consistente, recuperar-se bem entre os treinos e manter um bom desempenho ao longo de toda a temporada.